Competição: Liga ZON Sagres - 19ª Jornada
Estádio: Estádio D. Afonso Henriques, Guimarães
Data: Segunda-Feira, 20 de Fevereiro de 2012
Hora: 20h15
Transmissão: SportTV
Dificilmente uma antevisão minha a um jogo de futebol vos trará algum enriquecimento ou, mesmo, o prazer da leitura. É um aviso.
Quando penso no Vitória de Guimarães, o adversário do Benfica neste jogo, ocorre-me de imediato o Guarda-Redes Nilson Corrêa, o homem que consegue adiar o som do apito inicial até que termine o seu diálogo veemente com o Divino que, imagino eu delirante, interrompe os seus afazeres para, por momentos, vir pairar como um nenúfar sobre Nilson, e ai fica, em suaves deslocações verticais impulsionado por sopros salivares com palavras, até que as mãos enluvadas de Nilson choquem com estrondo, assinalando o momento em que deve o Divino ganhar altura. Acabada a metafísica arrebatada, concentra-se o homem no essencial; como um bravo.
Enquanto isso, na baliza oposta, Artur distende expressivamente os maxilares, pouco habitual nele, farão alguns reparo.
No final do jogo, Rui Vitória, com a serenidade habitual, virá sentar-se na sala de conferência de imprensa para dizer, sem se desviar muito do que já disse de outras vezes em situações semelhantes, que o Vitória fez o jogo possível perante um adversário forte, confiante e concretizador; por isso mesmo, remata, tenho que dar os parabéns ao Benfica. Fará ainda uma análise breve à parte do jogo e jogadores que lhe compete, terminando com a firme promessa de que continuará o seu trabalho com o mesmo empenho de sempre e que há muito campeonato pela frente, sem perceber que rima e, com isso, me desvia reflexivamente para a esquerda o nariz.
Jorge Jesus dirá que tendo sido uma semana exigente em termos físicos, os seus jogadores estiveram muito bem, com uma intensidade elevada, «como sempre» - frisará baixando a voz - num jogo tacticamente perfeito, bem disputado, onde «fizemos a diferença e os golos» remata sorrindo, contido.
Alguém da imprensa escrita conseguirá, numa só pergunta ao treinador do Benfica, aglutinar maliciosamente dois nomes: Nolito e Gaitan. E é então que Jorge Jesus surpreende tudo e todos (eu ainda não consegui dormir depois disso) quando resolve citar livremente Jorge Luís Borges.
«os Espanhóis tendem mais para a interjeição, para a exclamação; os Argentinos são mais de dizer as coisas, enfim, explicam, mas não estão a afirmar ou a negar como os Espanhóis costumam fazer. A conversa dos Espanhóis é uma conversa interjectiva, a dos Argentinos é digamos, em voz baixa, não aumentada; o homem argentino é facilmente capaz de ironia, daquilo a que chamam em inglês o understatement, o contrário, digamos, da hipérbole espanhola»
Agora você, senhor jornalista, acrescentará Jorge Jesus com alguma delicadeza na voz, será capaz de, num simples exercício, distinguir e apreciar dois estilos.