Não é seguramente no futebol, pelo menos ao nível do alto rendimento, que o aforismo “filho de peixe sabe nadar” encontra maior espaço de afirmação. Já o mesmo nunca poderia dizer (ou talvez sentir) o malogrado José e o seu filho Rui, que, fazendo excepção à regra, transformaram a família Águas na mais emblemática do futebol luso. E com a vantagem adicional – inclua-se também o sobrinho/primo Raul, outro jogador do Benfica – de se revelar pródiga em comunicar no idioma predilecto dos fãs da causa da bola – o golo.Rui cresceu com a imagem do pai a erguer a Taça dos Campeões. Daquelas que inspiram mais que um quadro de Picasso ou de outro dos imortais da tela. Por isso, aos 12 anos, era vê-lo nos infantis do Benfica. Foi assim durante duas épocas, seguindo-se o Cultural da Pontinha e o Sporting. Depois de uma pausa, com o voleibol a fazer em exclusivo as despesas da prática desportiva, Rui Águas, já sénior, defendeu as cores do Sesimbra, do Atlético e do Portimonense, ingressando no Benfica, aos 24 anos, corria a temporada de 84/85.
Ponta-de-lança nato, especialista no jogo aéreo, tinha mais intuição que escola. Mas tinha razão e coração. Mais ainda, tinha inteligência. O poder de salto e a execução técnica faziam o resto. E o resto eram golos, muitos golos. Um acervo deles. No total, fez 123 remates certeiros pelo Benfica, em 285 jogos, distribuídos por sete temporadas. Na época 90/91, sagrou-se mesmo o melhor marcador do Nacional. Conquistou três Campeonatos e outras tantas Taças de Portugal.Durante dois anos (88/89 e 89/90) jogou no FC Porto, transferindo-se para o Norte, alegando que o Benfica “pagava mal”. Em 31 ocasiões, vestiu a camisola das quinas, com o apreciável contributo de dez golos (seis pelo Benfica). Ainda disputou a final dos Campeões, em 87/88, frente ao PSV, mas não conseguiu imitar o italiano Paolo Maldini, vencedor do titulo europeu tal como o pai, Cesare Maldini, duas décadas atrás.
Abandonou o Benfica com o estatuto de campeão, no último grande triunfo da história centenária. Pese embora um número significativo de semelhanças, o mérito maior de Rui Águas foi libertar-se do estigma do pai, decerto o melhor cabeceador de sempre do futebol português. Ou talvez o mérito do Rui assentasse mesmo, donairosamente, em ter sido o filho do Águas que (também) sabia marcar.
Épocas no Benfica: 7 (85/88 e 90/94)
Jogos: 237
Golos: 104
Títulos: 3CN, 3TP
Texto: Memorial Benfica, 100 GlóriasCopiado de Ednilson